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SIX, blog

A Madame

17.11.14 | Joana Carreira

Já há algum tempo que queria escrever sobre este assunto, hoje, dia 17, ganhei "coragem" e decidi fazê-lo porque este blog apesar de ser muito "cor-de-rosa" é também um cantinho onde partilho um pouco mais de mim, da minha experiência, das coisas que me preocupam.Todas nós tivemos oportunidade de conhecer a história mediática da Nonô, da princesa côderosa que tocou tanta gente, a Nonô foi uma guerreira, uma princesa que lutou contra aquela que é a doença do século se é que assim se pode dizer. 

De facto é uma doença que assusta, que impõe respeito e que nos faz parar para pensar em como a vida pode mudar literalmente do dia para a noite. Quem já passou por isso bem de perto sabe bem que é verdade. A minha mãe teve, o pai da minha melhor amiga também, a madrinha do meu irmão, a minha avó, a minha tia... Infelizmente o cancro é uma doença com a qual sempre vivi bem de perto e com a qual fico sempre sensibilizada. 

Na verdade a minha vida mudou quando a minha mãe soube o diagnóstico, mudámos a alimentação e o estilo de vida, cortámos com muitas coisas e optámos por um estilo de vida mais saudável. Foi uma altura complicada, há imagens que me ficam guardadas e de facto, hoje que tenho mais consciência ela foi uma lutadora. Ela é uma rainha, o meu pai é um herói por ter estado sempre do lado dela e não há maior prova de amor do que essa. 

Para quem acompanha o blog desde o início, pode acompanhar por vezes, em alguns posts falar da minha tia-avó. A "titi" como costumava chamar, ou a "madame" como a minha avó lhe chamava era sem dúvida uma das melhores pessoas que conheci, lutou muito e conseguiu subir muito na vida, passou por muitas dificuldades, foi a irmã mais velha de 12 irmãos, cuidou da minha avó e foi como uma segunda avó para mim. Sempre cresci com ela e com a minha avó, verões em Cannes, fins-de-semana no Estoril, ia-me buscar a mim e ao meu irmão à escola com a minha avó. Era super bem disposta, mega teimosa (herdei um pouco isso dela), apaixonada pela moda (também deixou o bichinho dentro de mim), abriu uma loja de moda no Chiado, em Cascais, em Madrid, apaixonada pelas coisas boas da vida, honesta, generosa, ajudava sempre os mais desfavorecidos e sempre nos incutiu esse valor - falar da vida dela dava uma série de televisão. Fazia-nos soltar gargalhadas, conseguia sempre tudo o que queria, aprendi muita coisa com ela, era uma pessoa muito frontal, sempre honesta, sempre dona do seu nariz.

Era teimosa, ao ponto de ter vivido até aos 97 anos, ter conduzido até aos 96 e ter combatido esta doença até ao último minuto. Foi o caso de cancro mais devastador que conheci de perto, infelizmente era o principal medo dela. Foi há 3 anos, foi-lhe diagnosticado no pâncreas, já com estado avançado. Lembro-me de quando soube desta notícia ter chorado imenso e ter-me perguntado "porque é que as coisas más só acontecem às pessoas boas", infelizmente não havia grande coisa que pudéssemos fazer. Fomos vê-la ao hospital, depois foi para casa, onde pediu para ficar. O impacto que teve em mim foi devastador, diagnosticaram o cancro no início da semana, a cada dia que passava ia perdendo funções vitais, a visão, a fala, a mobilidade, o paladar, o olfacto... a audição foi o último sentido a perder, lembro-me de no dia antes de ter partido a ter ido visitar, e a minha mãe lhe perguntar se ela sabia quem estava ali com ela, eu falei com ela e ela sorriu. Depois de algum tempo, saí, fiquei a espreitar pela porta entreaberta e a pensar em como cresci com ela, como a admirava e admiro, até hoje. A cama que vêm nas fotografias que tiro, é dela (aqui), não há melhor e maior homenagem que lhe possa fazer. 

Hoje, espero que esteja, onde ela sempre quis estar - não, não é no céu. A Madame dizia que o céu era demasiado enfadonho, que preferia ir para o inferno que ao menos era mais divertido. Tenho saudades tuas, temos todos. Muitas. 

Tenho muito respeito, admiro muito a coragem de todos que passam por isto, a Vera, uma amiga de quem gosto bastante também criou uma página no facebook (aqui) e que transforma o cancro em vida, esteve a falar na TVI (aqui) sobre a sua vida depois do cancro e sei que vai vencer, pelo menos para mim, já venceu em enfrentar esta doença da forma que encara. Agarrar cada dia como se fosse o último, é essa a mensagem que a Nonô, a minha tia, a Verinha e a minha mãe me passam todos os dias.

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